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Na mesma semana, publiquei no Correio de Coimbra, em 27NOV25, e no Diário de Coimbra, em 28NOV25, dois artigos de opinião sob a mesma temática da ‘necessária despolarização da sociedade portuguesa nos tempos em que vivemos”. Será só a portuguesa?… São duas abordagens ligeiramente diferentes sobre um mesmo tema. O texto do Diário de Coimbra está AQUI. Segue o artigo do Correio de Coimbra.
“Ninguém é isento!” é uma ideia que está hoje enraizada na sociedade portuguesa. Não subscrevo, mas compreendo quem a utiliza. Desta sentença se projeta a convicção – simplista – de que perante uma situação, um acontecimento, um posicionamento ou uma opinião, só há duas hipóteses: Ser a favor ou ser contra. Inviabiliza-se qualquer hipótese de uma via alternativa, que possa passar pelo meio termo, por um outro caminho, por um outro ponto de vista.
Esta ideia, que é de polarização – porque apenas vê a hipótese de dois polos antagónicos –, coloca-nos na obrigação de escolher apenas um dos lados, e depois impele-nos a catalogar o outro que está ‘do outro lado’ com generalidades que, no limite, o categorizam pelo polo escolhido.
Partir do principio de que ‘ninguém é isento’ faz-nos ‘comer’ opiniões, não de comentadores independentes e ‘externos à contenda’, mas, apenas de representantes dos dois lados. Aceitámos prescindir das ‘análises’ para passarmos a ter, apenas e exclusivamente, debates, duelos e gritarias dramáticas. A demonstrar o que digo aconselho a visualização – mesmo que rápida – de qualquer canal de noticias na atualidade.
Antevendo mais um número quase bélico, o Presidente da República, na sessão solene do 25 de Novembro, preferiu falar de um Portugal com 900 anos e evitar o lugar-comum de exaltação versus negação do acontecimento histórico celebrado. Interpretámos uma referência, da parte do Chefe do Estado, a um Portugal maduro e perene orgulhoso da sua moderação e bom senso, hoje (momentaneamente) envolto num clima de polarização crescente. Uma polarização que não é – ao inicio – uma crispação violenta, mas uma erosão silenciosa: o cancelamento dos que pensam diferente, a suspeita sobre o outro, o empobrecimento da conversa pública.

Precisamos de nos despolarizar. E com isto não nos referimos à diluição das convicções nem à indiferença política. Refiro-me à capacidade de transcender o dualismo, a lógica histérica do “ou és comigo ou contra mim”. A vida democrática perde profundidade quando a divergência se transforma em trincheira. E perde caridade — essa forma de amor político tão esquecida — quando deixamos de procurar no outro o irmão, vendo apenas o adversário.
No escutismo aprendemos cedo que “o outro” não é ameaça, mas oportunidade. A patrulha é um laboratório de divergências onde cada voz é necessária. Nunca fomos treinados para pensar todos da mesma maneira — fomos treinados para, pensando diferente, agir juntos. Essa pedagogia da convivência, tão simples na forma e tão exigente no espírito, é talvez uma das respostas mais urgentes para a vida pública portuguesa.
Despolarizar não significa apagar conflitos; significa integrá-los com inteligência e humanidade. Significa cultivar uma discordância saudável, onde o argumento vale mais do que o rótulo, e onde a verdade se procura no diálogo e não na crispação. Como cristãos, acreditamos num Deus que se revela na relação; como escuteiros, acreditamos numa construção comum que exige mão estendida e disponível, não punho cerrado.
Talvez seja tempo de recuperarmos a velha arte da dialética: conversar para compreender, discordar para crescer, debater calmamente para servir. A política portuguesa — e, no fundo, toda a nossa vida comunitária — precisa urgentemente desta cultura. Porque a polarização não destrói apenas o espaço público; destrói sobretudo a confiança, essa pedra angular da convivência democrática.
Que este seja, portanto, o apelo: despolarizar para reconstruir. Reencontrar a coragem de ouvir, a humildade de rever posições, a ousadia de cooperar com quem pensa diferente. Não há futuro comum sem esta conversão do olhar. E talvez o escutismo, com a sua simplicidade pastoral e a sua sabedoria prática, possa ajudar a abrir esse caminho.
Texto publicado no Correio de Coimbra de 27NOV25
Correio de Coimbra #24
