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sísifo

SÍSIFO

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga, in Diário XIII

Coimbra, 27 de dezembro de 1977

 

Começar o ano… recomeçar a vida, neste ciclo sem fim, com poesia pode ser um bom augúrio. E, confesso, esta ideia de eterno retorno lembra-me sempre o pobre Sísifo, rei de Éfira. Neste poema de Torga, com quarenta anos, o poeta transmontano fala-nos de um herói que do fruto aceita nada menos do que o todo, e de uma alma onde só pela lucidez possa ser reconhecida a loucura…

O Sísifo de Camus, em 1941, é o Homem em busca de sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível desprovido de Deus e eternidade. Este de Torga parece mais optimista e obstinado.

Eu prefiro este…

Bom ano

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