Ainda não li o “Uma Pequena História do Mundo”, de Sir Ernst Hans Gombrich. Mas estou muito curioso! Parece ser uma obra interessante.

Gombrich ‘apareceu-me’ a semana passada, através de uma citação desse livro – que terá escrito em 1936, na Alemanha, e que foi revisto e traduzido e republicado em 2005.

Na citação a que tive acesso, Gombrich usava a imagem de um poço sem fundo para ilustrar a história do mundo. Comparava, então, a nossa memória pessoal a um pequeno papel a arder deixado cair nesse poço. O papel vai caindo devagar e vai iluminando as paredes do poço, até desaparecer. Quando desaparece deixamos de ver as paredes do poço.

“A nossa memória é como este bocado de papel. É com ela que nós iluminamos o passado! Primeiro, o nosso próprio passado e depois temos de pedir a pessoas mais velhas para nos contarem aquilo de que se lembram [e nos transmitam o que viram nas paredes do poço] (…) Dessa maneira [Só dessa maneira] conseguimos iluminar o poço mais fundo”.

Gosto muito desta imagem. Acho-a muito interessante.Até porque vai ao encontro de uma conversa que tive há umas duas semanas com uma pessoa que muito estimo e de quem gosto muito – o professor Manuel Santos -, a quem pedi que me contasse as memórias que tem do espaço onde existe hoje o Parque da Cidade (para um trabalho que me foi solicitado por uma personalidade local, com quem estou a falhar). A conversa descambou – como sempre… – e foi parar ao reconhecimento da necessidade que temos (ou da preocupação que deviamos ter) com o registo do que nos vai acontecendo e do que vamos conhecendo/descobrindo através do testemunho que nos transmitem pessoas mais velhas acerca de acontecimentos passados. Concluímos, irremediavelmente, que no dia em que essas pessoas desaparecerem, se não houver registo, a memória coletiva perde-se para todo o sempre, porque a memória das paredes de um poço que não vimos morre com elas. E essa é uma perda irrepararável.

Para além da perda, ao professor, como a mim, frustra muito o facto de termos consciência de que o devíamos fazer – registar essa memória alheia – e não o estamos a fazer de modo suficiente. Estamos a fazê-lo – através das noticias do dia-a-dia que registamos no jornal, dos artigos historiográficos que aqui publicamos (tanto no JM como no FRONTAL) na criação e publicação da revista VIA, etc. etc. etc…
Mas mesmo assim não chega, porque todos os dias desaparecem olhos que viram – através do pedacinho de papel – bocados da parede do poço que mais ninguém viu!

Chega a ser doloroso, pensar que nunca conseguiremos abarcar todas essas memórias dos outros!
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