Inauguração do chafariz do GAROTO - 1915
Já escrevi muitos discursos políticos, alguns deles importantes, e relevantes. Sempre para políticos vivos… Nunca tinha escrito um discurso para um morto…  Até há poucos dias, quando Mário Rui Cunha, no âmbito das comemorações (25 de outubro de 2015) do centenário da inauguração da Fonte do Garoto (1 de Agosto de 1915), na Pampilhosa, me perguntou se eu me atrevia a escrever o discurso de Joaquim da Cruz. Não fez a coisa por menos, foi logo para o Joaquim da Cruz – n.1884 – f.1975, empresário, político republicano, presidente da Câmara, maçon, “uma das figuras mais proeminentes e importantes do concelho da Mealhada na primeira metade do século XX -.
A minha resposta foi logo, e imediatamente, que não tinha arcaboiço para tal empresa… E que havia, certamente, que com ele ainda conviveu que poderia fazê-lo.
O desafiador lá insistiu e passado uns dias mandou-me um texto – um manifesto republicano para as eleições municipais de outubro de 1916 – que, assinado por Joaquim da Cruz, podia ser que ajudasse a procurar encontrar o vocabulário.
E eu caí na tentação de tentar… o resultado foi este que abaixo se apresenta, com – como se pode ver – frases inteiras retiradas do tal manifesto. Foi uma agressão? Foi uma tentativa bem conseguida? Foi o que se pode arranjar! Mas obrigado pelo desafio.
Concidadãos
Vivemos o momento em que nos é dado admirar e confirmar que as promessas feitas pelos republicanos se transformaram em regalias, fazendo valer os direitos dos municipes e assegurar as prosperidades do nosso município e da nossa querida terra.
Inauguramos nesta hora, este magnifico fontanário, público, pleno de beleza e força, que garantirá ao povo do Entrocamento o acesso a um dos bens mais preciosos, necessários e escassos à vida do Homem: a água, em condições de ser bebida por crianças, velhos e homens e mulheres de trabalho, em condições de lhes servir de alimentos, sem os matar com doenças e prejuízos.
Mais nos alegra e estimula, o facto de este monumento, esta torrente de água pura, se encontrar engalanado por esta magnifica obra do nosso amigo Teixeira Lopes, passando a ser esta uma das fontes mais bonitas que temos visto, comparáveis a cidades de beleza por todos elogiada. E como é gloriosa a luz da beleza mostrada aos olhos de todos, ricos e pobres, velhos e novos, homens iguais em direitos e regalias.
Este rapaz, pleno de energia, na flor da idade, cheio de pureza e inocência, permanecerá nesta praça, aqui se perpetuará à frente dos nossos filhos e dos nossos netos e dos netos deles, mostrando a beleza, dando a boa água, enegrecendo-se pelos tempos dos tempos, mas não deixando nunca de ser um garoto, um inocente e altruista garoto, dando-nos da sua água.
Está de parabéns Teixeira Lopes por esta escultura, bela e imponente, cheia de significado, que se eternizará para sempre.
Os últimos anos da gerência da Câmara, que tanto tem feito sem um único encargo para o município, e que muito mais conta fazer sem sobrecarregar o magro orçamento dos munícipes, demonstram claramente qual o caminho que a República abriu a todos nós e que caminhos teremos de seguir, mantendo-a viva e forte, com o propósito de fazer progredir a Nação e os portugueses.
Nos últimos anos, com a liderança de homens bons como o Dr. Eugénio d’Oliveira Couceiro, aqui presente, nosso presidente da Câmara, e benemerências de outros tantos homens que tratam desinteressadamente a boa administração do município, onde me incluo, muito tem sido feito em prol da prosperidade material deste concelho.
Não nos cabe iludir-vos com mentirolas grosseiras, com o intuito de vos apanhar o voto. Não, não quero. Não pertenço ao numero daqueles que para alcançarem um lugar electivo adoçam os lábios de quem os ouve e descem à ignomínia da intriga e da difamação. Os meus processos são outros, assim como é outro o meu pensar.
Aos bons republicanos, sempre que é possível, cogita a forma de minorar a sorte dos desprotegidos da fortuna e ser útil ao concelho a quem prendem laços imperecíveis de serviço e dever. Hoje, este fontanário é disso prova.
Auxiliados pelos valiosos amigos, os republicanos, desde o fim da tirania, têm conseguido dotar este concelho com os melhoramentos, materiais e benéficos, que é sempre oportuno relembrar.
São tão frisantes estes factos que não oferecem a menor contestação. O soberano é o povo e nas suas mãos está o poder e dele depende o triunfo.
Viva a República.
joaquim da cruz manifesto republicano