.
Lei da memória II

Entendemos que as comunidades, as sociedades modernas, precisam de espaços de memória, necessitam de ter acesso à informação histórica, de confrontar pontos de vista. Consideramos que no concelho da Mealhada há um défice neste domínio. São poucos os estudos historiográficos desenvolvidos a propósito deste município. Honrosas excepções, com manifesto interesse científico, lembram-nos que há imensos aspectos da história deste território que estão por aprofundar. O concelho da Mealhada é, e sempre foi, um território dinâmico de passagens e confluências, de acontecimentos que poderão representar, apenas, uma nota de rodapé na História de Portugal, mas que, mesmo assim, merecem ser identificados e estudados.
O Arquivo Municipal da Mealhada tem de ser, não há dúvida disso, a grande casa da memória do concelho. Uma casa de estudo, que não colmata a falta de espaços museológicos no concelho. Um museu é, nos dias de hoje, mais do que um depósito de objectos e documentos que alguém abre quando lhe batem à porta. Um museu já não é uma infra-estrutura construída para uso dos naturais ou residentes da localidade ou da zona onde está implantado. Exemplos recentes, como o do sucesso que constituíram as exposições sobre a memória histórica do Luso, obrigam-nos a considerar que faz falta um bom museu, histórico, sobre o concelho da Mealhada.
Poderá dizer-se que, ao salientarmos a falta de um espaço com tais características, estamos a ser injustos para com o Museu Militar, no Buçaco, ou a Casa Quinhentista, na Pampilhosa. Não nos parece. Antes pelo contrário.
A cultura da memória obrigaria também a que valorizássemos o património monumental. O Convento de Santa Cruz do Buçaco fechado ao fim-de-semana é, por exemplo, uma medida que nos parece lesiva para todos. Uma família de gente trabalhadora com filhos na escola, por exemplo, dificilmente poderá visitar o mais importante edifício histórico do concelho da Mealhada.
A lei da memória, numa sociedade democrática e moderna, deve promover uma abertura completa, e sem dramas, ao conhecimento do passado. Opor-nos-íamos, frontalmente, se uma qualquer lei da República, em nome da memória, obrigasse à destruição do escudo coroado que encima a frontaria da Câmara Municipal da Mealhada. Era o símbolo nacional em 1895, data em que o edifício começou a ser construído, e seria inaceitável retirá-lo. Usando do mesmo critério, lamentamos que, no monumento erguido em memória dos mortos mealhadenses na Primeira Guerra Mundial os nomes dos homenageados persistam quase indecifráveis. O mesmo critério impele-nos a sugerir que seja colocada uma placa evocativa na zona dos Chafarizes, na Mealhada, local onde, a 10 de Outubro de 1946, foi detida a tentativa de golpe de Estado mais tarde chamada Revolta da Mealhada. É a memória que o obriga.
in Editorial do Jornal da Mealhada de 05.12.07